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sábado, 20 de julho de 2019

Reforma do Polo de Lazer do Conjunto Ceará expõe truculência do Poder Público e resistência da Comunidade

No centro de uma importante polêmica que envolve o direito à cidade para populações periféricas e o direito a autoafirmação para comunidades criativas, o Polo de Lazer do Conjunto Ceará precisa ser visto com mais atenção para que se perceba o que está por trás da forma truculenta com que os agentes criativos e os empreendedores deste espaço são tratados há algum tempo pelos poderes públicos e se entenda a sua corajosa resistência.


O Polo de Lazer do Conjunto Ceará, surge no ano de 1990, como Polo Metropolitano Luiz Gonzaga, através de uma ação do Governo do Estado do Ceará, que transformou a área central do bairro em “área institucional”. Um quadrilátero situado entre as avenidas Ministro Albuquerque Lima (Av. Central), Avenida Alanis Maria Laurindo de Oliveira (Av. B), e Rua 602 (atualmente, a Governança do Polo Criativo considera este limite como a Av. A) na primeira etapa do Conjunto Ceará.

O Polo de Lazer antes do governo do Estado começar a quebrar os equipamentos do local para realizar a obra de reforma e requalificação do espaço

“Dez espaços abrigam a maioria das ações culturais do polo de lazer. São eles, a “Pista velha” (anfiteatro frequentado por skatistas e pelos demais grupos underground do Bairro); o Maculelê Bar, que, construído artesanalmente, funciona como atração artística, e realiza vários festivais culturais durante o ano; a sede do Território Criativo, um espaço cultural, palco de espetáculos de teatro e poesia, treinos e oficinas de break, com paredes externas oferecidas como galeria para grafites, e que congrega diversos coletivos em um formato de coworking; O Projeto de Desenvolvimento Comunitário do Conjunto Ceará (PRODECOM) cuja sede é um teatro, e que mantém uma biblioteca, um curso de violino e realiza o espetáculo “A paixão de cristo”. Soma-se aos demais, o Centro Cultural Patativa do Assaré (CCPA). Este, reúne empreendedores, artistas e produtores culturais, sendo um centro comercial e de fruição cultural. Tem ainda o Centro de Cidadania - antigo Centro Social Urbano (CSU) que oferece uma biblioteca e alguns cursos, artísticos e profissionalizantes. Em relação ao esporte, o polo de lazer conta com a “Quadra de areia” que é um espaço para prática de esportes como vôlei; A “Quadra de futsal” que é um equipamento frequentado por jovens e adultos praticantes de futebol de salão; a “Areninha”, antigo campo de futebol reformado pela Prefeitura de Fortaleza, e que recebe jogos tanto dos moradores do Conjunto Ceará, como dos bairros vizinhos, e disponibiliza uma academia comunitária; e a “Praça da Juventude”, que dispõe de vários aparelhos para a prática do skate, e de um palco destinado a shows e eventos artísticos. Juntos, estes equipamentos oferecem grande variedade de opções artísticas e sociais durante o ano todo. A programação destes equipamentos somada à oferta de serviços e produtos do entorno, serve de base para a formulação do “Polo Criativo”, que o Coletivo Território Criativo adota como principal estratégia de desenvolvimento sustentável, ou seja, de um tipo de desenvolvimento pautado no equilíbrio entre fatores sociais, culturais, econômicos, ambientais e políticos, e que priorize as fortalezas e capacidades da comunidade como elementos principais da sua autosustentação. ”

Atualmente as atividades da maioria dos espaços encontram-se paralisadas devido à intervenção do Governo do Estado com a obra da reforma (que também não consegue se efetivar) e pelas ações repressoras da Prefeitura de Fortaleza que inviabiliza as atividades culturais, sociais e econômicas do local.

"Palco dos principais eventos culturais e políticos da comunidade, um lugar que desperta sentimentos e visões diferentes, contraditórias e até antagônicas nos moradores, visitantes e nos seus frequentadores habituais. Ao estudar o bairro Bom Jardim, situado na periferia de Fortaleza e vizinho ao Conjunto Ceará, em seu livro Contingências da Violência em um Território Estigmatizado, O sociólogo Luiz Fábio Paiva nos diz que os poderes públicos costumam ver as periferias das grandes cidades como uma espécie de “mancha” na estrutura da cidade. A 'mancha', aqui citada, se refere a forma como estes agentes públicos tratam os problemas sociais desses lugares. É, portanto, um termo negativo e potencialmente pejorativo. O polo de lazer do Conjunto Ceará, situado na periferia da mesma cidade e bem próximo da área estudada por Paiva, não escapa a este estigma. E, vez ou outra, é tratado desta forma pelas autoridades públicas."

Diante da atual postura da Prefeitura de Fortaleza em relação ao Polo de Lazer, com ações repressivas constantes contra os comerciantes e coletivos culturais da região, perpetradas pela sua Agência de Fiscalização (AGEFIS) que multa, apreende equipamentos e instrumentos de trabalho e impede o funcionamento do local, e a omissão do Governo do Estado que mantém uma obra semi-paralisada no espaço e nada diz sobre as arbitrariedades do seu parceiro (Prefeitura de Fortaleza), a população desconfia que os atuais governantes estejam novamente encarando o Polo de Lazer do Conjunto Ceará (principalmente a sua parte viva, criativa e atuante, a sua gente)  como uma “mancha” a ser removida da cidade.


* Os trechos entre aspas foram retirados da obra TERRITÓRIO CRIATIVO: UM ESTUDO SOBRE UMA POLITICA PÚBLICA DE ECONOMIA CRIATIVA NO POLO DE LAZER DO CONJUNTO CEARÁ EM FORTALEZA – CE do Cientista Social, Sousa MJS. Disponível no Repositório Institucional da Universidade Federal do Ceará (UFC).


Mundos Possíveis.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Polo Criativo do Conjunto Ceará ameaçado


Uma comunidade na periferia da cidade de Fortaleza, no estado do Ceará, trava uma batalha ruidosa pelo direito ao desenvolvimento e autoafirmação. Trata-se do Conjunto Ceará que tem no Polo de Lazer - uma grande área institucional com praças, centros culturais, igrejas, sedes de ONGS, coletivos e projetos sociais, prédios históricos, empreendimentos criativos e atividades sociais efervescentes - o motor do seu desenvolvimento e a principal trincheira de resistência de um movimento cultural e criativo histórico.


O local já tem mais de 30 anos e finalmente recebeu uma proposta de  reforma e requalificação por parte do poder público, no entanto, uma obra que não tem data para ser finalizada (pelo menos não na placa oficial afixada pelo governo estadual no local) e que, de verdade, nem ao menos começou, já consumiu aproximadamente um ano e o sossego de dezenas de empreendedores, coletivos culturais e trabalhadores que dependem do espaço para desenvolver as suas atividades e pagar as contas do dia a dia.

Para realizar o fechamento do lugar e realizar a obra, o Governo do Estado prometeu realocar todos os empreendedores num outro espaço, acomodando-os em contêineres e assegurando-lhes o retorno aos seus locais de origem no término da reforma. Mas, essa promessa não foi cumprida. E é ai que começa o calvário dos agentes sociais, econômicos e culturais que sobrevivem e atuam no Polo de Lazer do Conjunto Ceará.

Uma agência fiscalizadora da Prefeitura de Fortaleza (AGEFIS - Agência de Fiscalização de Fortaleza) iniciou um conjunto de ações de repressão e abusos contra os empreendedores do local, multando-os, recolhendo os seus materiais de trabalho e os tratando com extremo autoritarismo. Nem uma reunião com o Secretário que, oficialmente, responde pelo comando da AGEFIS resolveu o problema. Um dia após a promessa do gestor de que os empreendedores não seriam incomodados até que fosse estabelecido um plano de desocupação e realocação para procedimento da obra, uma equipe da AGEFIS retornou ao local, multou, apreendeu equipamentos de trabalho. E um dos agentes ainda mandou um recado para o secretário (que supostamente deveria ser responsável pelas ações da agência) de que ele "não manda nada e que eles (os agentes) não trabalham para ele".

Soma-se a isto a atuação arbitrária de policiais pedindo alvarás de funcionamento (que a Secretaria Executiva Regional V se recusa a expedir para os empreendedores) e fechando quiosques e comércios do Polo, além de expulsar autoritariamente jovens e clientes do espaço e encerrar eventos de coletivos culturais e movimentos sociais que usam o Polo de Lazer.

Quanto aos responsáveis pela obra da reforma do Polo de Lazer do Conjunto Ceará, estes, não fornecem mais informações ou dialogam com a comunidade. A Casa Civil do Governo do Estado que se apresentou na comunidade como responsável pela intervenção, não consegue explicar o que houve com os primeiros acordos que envolviam uma retirada planejada e uma realocação prometida aos empreendedores e coletivos e muito menos comunica quando e como se retomará os trabalhos no local (a obra conta com um número muito reduzido de trabalhadores que não dispõem ou não apresentam um projeto ou um plano para efetivação da reforma).

Diante do impasse, os empreendedores e alguns coletivos desconfiam das intenções dos agentes públicos, acreditam que pode estar em curso uma estratégia para retirar-lhes "na marra" do local e até mesmo tomar-lhes os espaços de trabalho. Afinal, até as luzes do Polo foram apagadas pela companhia que fornece energia, deixando o seu local de trabalho e atuação às escuras. E enquanto a Prefeitura de Fortaleza os multa, apreende os seus materiais e fecha os seus empreendimentos, por outro lado, contraditoriamente, autoriza novos comerciantes a se instalar no Polo de Lazer, como no caso de um contêiner sofisticado e caro que se instalou irregularmente no espaço pertencente à COHAB (área que faz parte do terreno do Centro Cultural Patativa do Assaré) com a conivência da Prefeitura e da Regional V.

Toda essa situação pede que o Governo do Estado rompa o silêncio e se responsabilize perante a comunidade e a sociedade e esclareça junto com o seu parceiro na obra, a Prefeitura de Fortaleza, o que está acontecendo, qual o futuro da reforma do Polo de Lazer do Conjunto Ceará e como serão tratados os coletivos e empreendedores do local. Pois a comunidade do Polo de Lazer encontra-se assustada e indignada com a ação dos agentes públicos.

Mundos Possíveis.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Coletivo Território Criativo leva projeto de formação para juventudes da Praia de Lagoinha-CE

O Coletivo Território Criativo em parceria com o Canal Futura e com o Instituto Landuá das Artes leva o projeto "Maleta Juventudes"para comunidades de Paraipaba-CE. No último dia 13 de julho a ação aconteceu na comunidade de Santa Luzia na Praia de Lagoinha, no litoral Oeste do Estado, e envolveu dezenas de jovens que conheceram os conteúdos da "Maleta Juventudes" e participaram de uma roda de conversa sobre Cultura.

Novas ações foram planejadas com os jovens e outras comunidades da localidade solicitaram participação no projeto que planejará atividades para atender às juventudes locais. As ações do Território Criativo nessa região incluem também o fomento à economia criativa, ações de advocacy e de apoio ao desenvolvimento local.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Sobre violência e crime

A “guetização” forçada das juventudes da periferia, empurradas para o confinamento em áreas urbanas com pouca ou nenhuma infraestrutura, sem acesso a atividades esportivas, artísticas e culturais, sem políticas públicas, emprego ou perspectiva, tratadas exclusivamente como questão de polícia e problema de segurança, funciona como margens que estão comprimindo um rio volumoso que tende a irromper-se arrastando tudo ao seu alcance. As facções de agora, como as gangues de outrora, podem ser vistas como “suspiros”, “sangradouros” que podem preceder enxurradas ainda mais letais.

Sousa, MJS.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Existe uma sociedade weberiana?

Max Weber, conhecido como um dos fundadores da sociologia moderna (Foto: Reprodução)
Michel Misse
Originalmente publicada em  https://revistacult.uol.com.br/home/
  Embora seja usual falar-se de uma sociologia “weberiana” e de sociólogos “weberianos”, ou de uma escola “weberiana”, não podemos aceitar rigorosamente essas classificações, a não ser quando se pretende demarcar uma tendência dominante, em certos autores e obras, da influência de conceitos e perspectivas desenvolvidos nos diferentes trabalhos de Max Weber. Mesmo assim, não há nada, nesse caso, comparável, por exemplo, seja à apropriação e desenvolvimento das teorias de Marx no marxismo, seja à apropriação e desenvolvimento das teorias de Freud na psicanálise. Não há nada na obra de Weber que permita desenvolvimento similar ao do marxismo e ao da psicanálise, e isso por duas razões.
Em primeiro lugar, Weber não propõe uma revolução científica ou um deslocamento teórico fundamental, um novo paradigma científico, e nem foram esses os efeitos epistemológicos de sua obra, como, ao contrário, parece acontecer com as obras de Marx e de Freud (tal, pelo menos, como reivindicam marxistas e psicanalistas). O próprio Weber condenava, no marxismo e na psicanálise, sua unilateralidade radical, que os lançava, em seu entender, na metafísica e na disputa de pressupostos últimos aos quais a ciência não poderia responder.

Em segundo lugar, Weber reivindica a tradição acadêmica e científica da pesquisa histórico-social de seu tempo, mesmo quando de sua contribuição original para essa ciência, a sociologia, que também se desenvolve, independentemente de sua obra, e com base em outros paradigmas, em outros lugares. Ainda que proponha métodos e conceitos suficientemente abrangentes e rigorosos para entronizá-lo como fundador de uma escola, sua obra não produziu influência dessa maneira, mas de outra, mais difusa, e também mais coerente com o sentido que a distinguia das demais.

Weber não formou uma escola, como aconteceu com Marx e Freud, e mesmo com Durkheim. Não teve discípulos diretos, com os quais precisasse retificar constantemente o desenvolvimento de seu próprio paradigma. No entanto, é indubitável que no desenvolvimento da sociologia, tal como vem se realizando desde o início do século, a contribuição weberiana é decisiva, fundamental mesmo, por demarcar um de seus principais paradigmas. Curiosamente, embora Durkheim tenha uma posição análoga à de Weber por ter também contribuído com outro paradigma fundamental, e ao mesmo tempo divergente do dele, não é usual falar atualmente de sociólogos “durkheimianos” ou de uma sociologia “durkheimiana”, e isso quando se sabe que a influência de Durkheim foi mais sistemática que a de Weber, a ponto de ter existido uma “escola durkheimiana” na França, o que nunca ocorreu com Weber, nem mesmo na Alemanha.

A influência da obra de Weber, embora crescente ainda quando ele estava vivo, não era do tipo que possibilitasse uma escola. Mesmo essa influência foi drasticamente interrompida, na Alemanha, 12 anos após sua morte, pela chegada dos nazistas ao poder. Suas principais obras, com exceção de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, permaneceram esgotadas e sem reedições durante quase 20 anos, e em grande parte espalhadas em revistas e periódicos de pouco acesso ao público não germânico. Apesar disso, sua influência foi decisiva em obras que foram publicadas antes da Segunda Guerra, algumas das quais vieram conformar grande parte do quadro atual da sociologia. Entre essas obras, basta citar Ideologia e Utopia, de Karl Mannheim; História e Consciência de Classe, de Georg Lukács; Estrutura da Ação Social, de Talcott Parsons; e Fenomenologia do Mundo Social, de Alfred Schutz.

O weberianismo como contrassenso

Desde aqui já se pode notar a abrangência e o tipo de influência que a obra de Weber começará a exercer. Nenhum desses trabalhos é “weberiano” e, no entanto, todos estão numa relação fundamental com a obra de Weber; em todos eles, também, a posição weberiana é posta em situação de interlocução, de diálogo com outros pensadores-chave; Lukács e Mannheim, de modo diferente e pesos desiguais, põem Weber em relação com Marx, e daí destilam suas contribuições originais; Parsons põe Weber em relação com Durkheim e Pareto; Shutz coloca Weber em relação com Husserl.

Para cada uma dessas posições, enfatiza-se um aspecto da obra de Weber. Pode-se dizer que são Webers diferentes os que saem dessas posições: um Weber subsumido no marxismo hegeliano de Lukács; um Weber que retifica e modera Marx, na sociologia do conhecimento de Mannheim; um Weber fenomenológico, intuicionista, neoidealista, na “síntese” de Shutz. No campo substantivo da influência, a abrangência e a variedade não são menores. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo é o rosto mais badalado da influência, mas não é nem a principal nem a mais duradoura, apesar de ter produzido um dos grandes veios polêmicos do século. Weber trabalhou sobre campos extraordinariamente diversos e sua influência acompanha essa diversidade, que vai do direito à sociologia da música, da história econômica à sociologia das religiões, da filosofia da ciência à política alemã. Conceitos como “tipo ideal”, “ação social”, “compreensão”, “autoridade”, “dominação”, “carisma”, “vocação”, “racionalidade”, “burocracia”, “estamentos”, “legitimidade” e muitos outros estão inteiramente orientados, na sociologia contemporânea, pela influência de Weber.

O peso das interpretações pioneiras de Weber, em especial por sua influência sobre toda a sociologia acadêmica mundial, aquela que veio da obra de Talcott Parsons, vem passando por ampla reavaliação crítica há quase cinco décadas. Os resultados dessa reavaliação, que incluiu um renovado interesse dos marxistas por sua obra, têm possibilitado – 90 anos após sua morte – o conhecimento de um Weber muito mais profundo e contemporâneo do que as primeiras interpretações poderiam fazer supor. Não é exagerado afirmar que sua influência, hoje, é comparativamente mais abrangente, mais sistemática e mais rigorosa do que em sua própria época ou em qualquer outra, não obstante manter sua característica de não formar escola. O propalado “weberianismo” é um contrassenso com a própria perspectiva científica de Weber, e o próprio Weber testemunha contra esse equívoco: “Na ciência, sabemos que nossas realizações se tornarão antiquadas em dez, vinte, cinquenta anos. É esse o destino a que está condicionada a ciência: é o sentido mesmo do trabalho científico… Toda realização científica suscita novas ‘perguntas’: pede para ser ‘ultrapassada’ e superada. Quem deseja servir à ciência tem de resignar-se a tal fato”.

A influência de Weber, apesar disso, ultrapassou seus próprios cálculos e merece uma reflexão porque é isso que ainda legitima o emprego de expressões como “weberianismo”. A ciência social carrega a bendita maldição filosófica de sua origem: a política. E como a filosofia e a política, o marxismo e a psicanálise, a sociologia precisa desenvolver-se renovando sempre suas relações teóricas com seus pais-fundadores: a reinterpretação das obras clássicas acompanha e indica esse desenvolvimento, tanto quanto os avanços obtidos nos campos substantivos (empírico e teórico). Não é impossível escrever uma história da sociologia com base na sucessão das reinterpretações de seus clássicos. Essas reinterpretações são tão inesgotáveis quanto sua tendência para avançar para além do que estava originalmente escrito, conferindo-lhe uma nova dimensão, só possível pelo avanço substantivo efetivamente realizado. O que define uma obra como “clássica” é exatamente isto: manter-se contemporânea.

A influência disseminada

Talcott Parsons, cuja obra dominou a sociologia norte-americana por mais de duas décadas (1950-1960) e exerceu – e ainda exerce (embora seja declinante) – influência sobre toda a sociologia acadêmica mundial, travou contato com a obra de Weber ainda nos anos 1930, na Alemanha. Sua tese de doutoramento versava sobre o conceito de capitalismo em Weber e Sombart, o que lhe permitiu preparar o terreno teórico sobre o qual desenvolveria, em 1937, uma original tentativa de síntese sociológica, a primeira elaboração de sua teoria geral da ação. O livro, um grosso calhamaço de mil páginas, intitulado Estrutura da Ação Social, dedicou quase um terço das páginas à interpretação parsoniana de Weber. No entanto, sua apropriação de Weber caracteriza-se pela ênfase posta sobre as normas e valores sociais, em função de sua preocupação em construir as bases de uma teoria da integração social. Se isso lhe permitiu aproximar Weber de Durkheim muito mais facilmente do que é efetivamente possível, facilitou, no entanto, uma apropriação da obra de Weber nos Estados Unidos que, além de incorreta e problemática, enfatizava excessivamente sua utilização conservadora. No entanto, a influência de Weber na sociologia norte-americana, até então pequena, pegou carona no funcionalismo parsoniano e cresceu, até que no fim dos anos 1960 a revisão interpretativa de suas contribuições começasse a ser feita, resgatando-o contra Parsons. Quanto a isso, o pioneiro foi C. Wright Mills, cuja obra reflete uma influência weberiana bastante diferente daquela encontrada em Parsons e sua escola.

Se Parsons procurou aproximar Weber do funcionalismo durkheimiano, Wright Mills fez a aproximação com a tradição marxista, extraindo daí não só uma interpretação, mas um efeito – em suas próprias obras – crítico e politicamente renovador. Mills foi praticamente uma voz isolada numa América conservadora e exposta ao maniqueísmo da Guerra Fria, e uma voz que se calou precocemente (ele morreu aos 47 anos, em 1961). Apesar disso, sua influência na renovação antiparsoniana da sociologia norte-americana dos anos 1970 deveu-se, em grande parte, à extração marxista de sua apropriação de Weber, que lhe permitiu enfatizar, ao contrário de Parsons, os conceitos de classe, de interesse e de conflito. No entanto, ao contrário daquele, Mills jamais tentou uma sistematização conceitual que lhe permitisse construir uma abordagem tão abrangente quanto a parsoniana. Por isso, sua contribuição terminou confinada à sua época.

Lukács, o grande pensador marxista, frequentou assiduamente o Círculo de Heidelberg, que se reuniu na casa de Weber por quase uma década. Nos dois últimos anos da vida de Weber, quando já se tornara marxista, Lukács, ainda sob sua influência, redige alguns dos trabalhos que vão compor seu livro mais célebre. Além de abundantes referências aos trabalhos de Weber, Lukács promove uma inusitada aproximação marxista com a problemática weberiana da “racionalização”, cuja influência posterior não deve ser negligenciada. Mannheim, que foi chamado de “marxista burguês” e de weberiano “marxista” (sic), escreveu suas principais obras entre as décadas de 1920 e 1940. Sua influência, particularmente no campo da sociologia do conhecimento, é decisiva, e tão grande quanto sua pretensão de construir uma ponte entre Weber e Marx que resolvesse algumas das antinomias postas por essa relação. Sua influência sobre Mills permitiu a este se apartar da todo-poderosa interpretação parsoniana de Weber. Do mesmo modo, sua obra permitiu aos funcionalistas manter uma porta aberta ao marxismo (pelo menos nessa área da “sociologia do conhecimento”), como no estudo de Robert K. Merton sobre sociologia da ciência.

No pós-guerra, a influência de Weber alastra-se pela Europa e pela América. Raymond Aron, na França, forja o conceito de “sociedade industrial” e se apoia em Weber para criticar o marxismo. Ralf Dahrendorf, na Alemanha, sob forte influência weberiana, revisa o conceito de classe e, como Aron, substitui capitalismo por “sociedade industrial”, para enfatizar a dimensão mais abrangente (principalmente política) dos conflitos sociais do capitalismo tardio. A sociologia inglesa renova-se com a influência de Weber, principalmente nas obras de John Rex, J. Goldthorpe, David Lockwood, Frank Parkin e Anthony Giddens. Na França, Michel Crozier e Alain Touraine estudam a burocracia e a classe trabalhadora em aberto diálogo com as hipóteses weberianas, e Pierre Bourdieu reinterpreta Weber em seus trabalhos de sociologia da cultura.

Apesar da forte influência de Parsons, a sociologia norte-americana reencontrou Weber de diversas maneiras, desde o pós-guerra até hoje. Obras muito importantes como as de Seymour M. Lipset, Reinhardt Bendix, Robert Bellah, Clifford Geertz, Randall Collins e S. Eisenstadt, entre outros, foram desenvolvidas em constante recuperação e reinterpretação das hipóteses weberianas. Tendências que aparecem na época da Guerra Fria, como a sociologia fenomenológica, a etnometodologia, a sociologia radical, o interacionismo simbólico, retomam Weber exatamente onde Parsons o havia recalcado: no seu “idealismo”, na sua “sociologia compreensiva” e nas minuciosas questões metodológicas.

Em compensação, o “materialismo” de Weber é recuperado pelo marxismo do pós-guerra, que antes lhe havia reservado a indiferença dogmática ou o ataque superficial. Essa indiferença não existiu nos clássicos do marxismo, mas tornou-se dominante no período stalinista. Kautsky, Bukhárin, Rosa Luxemburgo, Gramsci, Lukács e Max Adler citam Weber e quase sempre em apoio às suas próprias ideias. Mas o conhecimento da obra de Weber era ínfimo, se comparado ao que os marxistas contemporâneos passam a ostentar a partir dos anos 1960. A influência de Weber na Escola de Frankfurt é reconhecida e bastante significativa, principalmente na obra de Habermas. A crítica superficial foi abandonada e o rigor com que muitos marxistas reavaliam a obra de Weber não fica nada a dever ao ostentado pelos “weberianos”.

Uma verdadeira história das reinterpretações de Weber e de suas disputas teria, agora, que descer ao campo temático e conceitual. Acompanhar a disputa dos conceitos, a detecção de suas ambiguidades originais, o aparecimento de novos problemas sobre os escombros de problemas que pareciam resolvidos, enfim, teria de ser uma história da constante reatualização de Weber, como a feita brilhantemente por Wolfgang Schluter nas últimas décadas. Aqui entrariam, por exemplo, a penetrante e nem sempre admitida influência de Weber sobre as obras seminais de Norbert Elias e Michel Foucault, apenas para citar dois nomes que continuam em evidência. Naturalmente, isso não pode ser feito aqui. De qualquer modo, será feito por cada sociólogo, em sua área específica de atuação. Isso será inevitável sempre que se descobrir que o sociólogo “weberiano” se dedica a uma coisa “que na realidade jamais chega, e jamais pode chegar, ao fim”.

Quem foi

Max Weber é conhecido como um dos fundadores da sociologia moderna, ao lado de pensadores como Vilfredo Pareto (1848-1923), Émile Durkheim (1858-1917) e Georg Simmel (1858-1918). Seu pensamento é marcado por uma crítica do materialismo histórico, que, em seu dizer, petrifica as relações entre as formas de produção e de trabalho e as outras manifestações culturais da sociedade. Para ele, o pensador social deve estar disposto a reconhecer a influência que as formas culturais, como a religião, por exemplo, podem exercer sobre a própria estrutura econômica.Karl Emil Maximilian Weber nasceu em Erfurt, em 1864, em uma família protestante.A partir de 1869, instala-se com a família em Berlim. Seu pai foi deputado do Partido Nacional Liberal, e, graças a ele, Weber, desde cedo, teve contato com homens políticos e pensadores influentes que eram frequentemente convidados à sua casa.

O jovem Max, entediando-se na escola e tendo pouco contato com os colegas de sua idade, tornou-se um leitor insaciável. Suas leituras (Cícero, Maquiavel, Kant etc.) testemunham sua grande precocidade intelectual. Terminada sua formação básica, Weber inscreve-se na Faculdade de Direito de Heidelberg, seguindo igualmente cursos de economia política, filosofia, história e teologia.Em 1889, Weber conclui seu doutorado sobre o desenvolvimento das sociedades comerciais nas cidades italianas da Idade Média. Em 1891, termina o trabalho A Importância da História Agrária Romana para o Direito Público e Privado, que o qualifica para ser professor na universidade. Esses anos foram decisivos na formação de Max Weber, porque o fizeram se interessar pelos problemas sociais de sua época.Aos 29 anos, em 1893, assume o cargo de professor de história do direito romano e de direito comercial na Faculdade de Berlim. Casa-se com Marianne Schnittger, ícone da causa feminista e intelectual engajada em questões políticas. Ela terá um papel decisivo na edição da obra de Weber, supervisionando principalmente a publicação dos escritos póstumos de seu marido, em especial de sua obra magna Economia e Sociedade.

De 1897 a 1903, Weber sofre de uma grave depressão nervosa, sendo obrigado a interromper seu magistério. Em 1903, retomando suas atividades intelectuais, reorienta suas pesquisas para a sociologia. É nesse contexto que ele publica A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Em 1909, funda a Sociedade Alemã de Sociologia.

Durante a Primeira Guerra Mundial, Weber inicia a redação de seu vasto projeto de sociologia comparada das religiões mundiais. Em 1919, muda-se para Munique, a fim de ocupar a cátedra de sociologia que a universidade havia criado especialmente para ele. É nessa ocasião que ele pronuncia duas de suas mais conhecidas conferências: “A Ciência como Vocação” e “A Política como Vocação”. Morreu subitamente em 1920, em consequência de uma pneumonia mal tratada.


Michel Misse é professor de sociologia da UFRJ