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terça-feira, 21 de maio de 2013

Luxúria, Vinho e Armani Underwear



Quantas batidas por minuto cabem num coração aficionado? Estou certo de que ninguém se prepara pra isso. O rádio trazia em música ambiente a jovem grega Malu Kyriakopoulou cantando "Amor perfeito" de Roberto Carlos em português. Parecia algo gravado de um desses programas de descoberta de talentos, tipo ídolos, ou sei lá o quê? Também não sei porque considerei adequado para a cena. Em outras circunstâncias consideraria inapropriado e desestimulante. Não costumo misturar romantísmo e erotismo gratuitamente. Acho vulgar proceder assim. A não ser que tal interpretação sensorial cumpra algum papel estratégico necessário para a obtenção dos resultados esperados. Sei também que parece cafajeste pensar e fazer assim. Mas já muito que me libertei da ditadura dos rótulos e do politicamente correto em situações "casanovianas" se é que isto existe.

Renato Russo disse que sexo verbal  não fazia seu estilo. Para o mesmo, palavras são erros. E os erros, a outrem pertenciam. Não concordo totalmente. Mas também não guardo muito apreço pela verbalização da cópula. No entanto, em se tratando de preliminares, reservo alguma importância para a oralidade, sem duplo sentido, ou com. O risco é cair no chulo descontextualizado e comprometer o evento como um todo.

A luz azulada do Abajur "cor de carne" na mesinha no canto da sala me lembrou Ritchie e sua "Menina Veneno", o que me fez de súbito focar a atenção naquelas pernas antes que mais breguices
ameaçassem o clima.

Também já ouvi dizer que o vinho libera as mulheres ou pelo menos as deixa mais fáceis de persuadir. Na verdade nunca pude comprovar tais teorias. As mulheres sempre me pareceram muito mais "donas da situação" quando estavam sob o efeito dos vinhos, sendo eles caros ou mais baratos, verdes ou de safras antigas e prestigiadas.

Os quartos perdem parte de sua beleza diante das camas em certas ocasiões. As camas parecem exercer uma certa tirania em relação à arquitetura e decoração dos quartos, principalmente quando estão à meia luz.

"Mundo verde" e vinho parecem combinar com luxúria como Hidrogênio combina com Oxigênio em relação à água e terminam por gerar resultados igualmente indispensáveis à vida moderna dos homens e das mulheres.

E em pouco tempo o grego, o português ou o hit oitentão que me viera à cabeça, não passavam de cacofonias fantasmagóricas sem nenhuma importância para a realização humana das vontades, caprichos e graças de Baco. E realmente. Quando o deus Rá principou sua travessia pelo céu, não havia mais sinal ou resquício algum de manifestações musicais de gosto duvidoso no ambiente. Apenas duas garrafas vazias, duas taças, algumas "bitucas" e algumas peças de Armani Underwear descansando no carpete.


Don Johnson de Sales.





Bonnie e Clyde, Robin Hood e "Mundo Verde" - Inspiração pra "Vida Louca" e Motivação pra Sociólogo estudar



Adrenalina, algum terel, possibilidades de "virada" na vida e uma mudança de status que o capitalísmo nega aos que vem "de baixo". O futebol já tá "viciado" a arte domesticada e monopolizada demais. A subida de status tem sido escalada "na bala". Nas ruas "Zé ninguem" vira "patrão" como registra e documenta a letra do RAP (ritmo e poesia em português). E quem vai negar o potencial afrodisíaco da marijuana quando misturada ao sexo. Os sociológos terão que correr para dar conta dos novos fatos sociais que podem jogar algum papel na explicação dos mais novos (e não tão novos assim) motivos e motivações que abarrotam as ruas de versões street de Bonnie e Clyde. O desvio parece passagem obrigatória para um número cada vez maior de jovens situados às margens das gozolândias da elite endinheirada. E um dos maiores fascínios que alimentaram e alimentam o mito de Robin Hood, não é só o fato do arqueiro de Sherwood tirar dos ricos e dar para os pobres. Mas também, o fato de além disso, ele simbolizar o desafio a uma elite pródiga e mesquinha. E no mais, bandido que tira do rico e fica com o que espoliou, se for pobre, já estará nutrindo dessa forma alguma versão contemporânea do mito em questão. São novos sinais de fumaça hidropônica que surgem na floresta de concreto e vidro. São indícios de que algo mais do que crime, perdição, amoralidade, pecado ou maldade se insinua por entre as vielas pixadas da metrópole, nos alto-falantes dos "carros de malandro" e nas cabeças dos avatares modernos de Bonnie e Clyde. Examinar, conhecer e compreender tais nuances do "cenário louco" da nossa moderna sociedade capitalista urbana, se não contribuir para mudar as coisas, pelo menos tem o potencial de uma instigante aventura em meio à "fauna" de "monstrões bagdá" e "vidas loucas" e por entre a flora "desviante" que compõe o "mundo verde" que inspira e sensualiza o lugar. 


Johnson Sales.

 

O Homem vazio



O relógio marcava 3:27 da madrugada. Acordara suando muito e impaciente. Notou que sentia uma terrível sensação de vazio. Se achava um homem vazio! Ele. Não sua vida. Sua vida era plena; cheia de possibilidades, pessoas interessantes e acontecimentos normais e anormais. Mas sua pessoa, essa sim, era destituída de conteúdos relevantes. 

Os muitos relacionamentos amorosos, sexuais, amorosos-sexuais, representavam uma prova inconteste de sua falta de profundidade, já que acreditava que nesse caso, a quantidade denunciava a escassez de qualidade. Foi até a geladeira e serviu-se de um copo de chá gelado. Notou que as paredes da cozinha pareciam úmidas e que a tinta amarela já descascava ameaçando precipitar-se sobre a cerâmica grande, preta e antiderrapante que também já apresentava sinais de desgaste. A casa toda parecia em acentuada decadência. Isto lhe fez pensar em como havia negligenciado aspectos importantes da sua vida nos últimos vinte anos. A vida lhe pareceu nesse instante com uma casa mal cuidada, pelo menos a sua especificamente, um desses imóveis dignos e nobres com uma robusta tradição familiar, com histórias acomodadas nos seus vários cômodos, uma casa que outrora representou a prosperidade e todo o orgulho pouco discricionário da família. Mas que uma vez passada de mão em mão através dos anos, termina por cair em mãos desleixadas de pessoas rasas de conteúdo como ele.

Pensou em fumar um cigarro e desistiu. O mais sensato seria voltar para a cama e tentar dormir e pela manhã procurar algum pintor; ou pedreiro; ou bombeiro hidráulico; ou carpinteiro; qualquer profissional desses que se encontra nesses catálogos de serviços de bairro ou na internet e começar uma reforma na casa.

Quanto a sua propria vida? Provavelmente ainda seguiria descascando a textura amarelada por algum tempo. Afinal, profissionais para consertá-la, até existem. Mas a reforma, para funcionar de verdade, terá que ser feita por ele mesmo e contar com insumos e materiais que atualmente acredita estarem em falta já que se considera um homem vazio.

Don Johnson de Sales.



Outsiders


Despertou em meio a trânsitos serenos de lábios deslizantes. Mas não foi assim mesmo que adormeceu? Degustado cada centímetro de significados e sentidos. Não faz sentido. Pensou sem nada dizer. A lua. Tinha a certeza que ela esteve ali. Logo ali por sobre a nuvem, entre os coqueiros, a nos espiar. Essas são coisas que sempre lhe acontecem em momentos assim. Essa sensação de ser espiada em situações íntimas. Mas nada pode macular essa noite quente, na areia em frente ao mar. Normal, estava certa que não era. Mas também, quem o é? Os normais não vivem tais prazeres; não vão tão longe sem maiores objetivos materiais. Somente os desajustados, outsiders e loucos se deixam arrastar pela felicidade. Mesmo que esta não passe de alguns momentos semi-desperta sob lábios a passear. Don Johnson de Sales.

"Às vezes não tenho tanta certeza de quem tem
o direito de dizer quando uma pessoa está louca
e quando não. Às vezes penso que nenhum de nós é
totalmente louco e que nenhum de nós é totalmente
são até que nosso equilíbrio diga ele é desse jeito.
É como se não importasse o que o sujeito faz, mas a
forma como a maioria das pessoas o vê quando ele faz."

WILLIAM FAULKNER, Enquanto eu agonizo
(São Paulo, Mandarim, 2001, tradução de Wladir Dupont).


segunda-feira, 20 de maio de 2013

O Cavalo do Tempo


Quando eu coloquei rédeas no tempo e aprendi a cavalga-lo. Vi que o que passava lentamente ao lado, não era a paisagem natural, mas sim, a cultura humana transfigurada em afetos, relações, encontros e desencontros. Percebi também que não se acomoda o tempo no estábulo da vida. Ele não para de galopar! A questão é se o mantemos como montaria, ou não.

Don Johnson de Sales.


Uma vida examinada




Suas últimas palavras foram dedicadas ao desprendimento para com todos os bens materiais que agora seriam divididos entre os seus familiares. O "espólio" menor de uma vida vivida na altura do mais platônico dos banquetes. Lembrava cada coloração capilar que gruadara-se em seu suor durante todas essas décadas. Cada música, letra e melodia; cada sabor: Amargo, adocicado, agridoce, estranho ou peculiar de toda aquela extensa vivência etílico-social passada em tavernas, botecos e quartos de hotéis suspeitos. Vivera muito e da forma que desejara. Não tinha porque lamentar o destino que o jogara numa cama acometido de cirrose hepática e de uma pneumonia chata e fatal. Tudo isso, essa sorte, demasiadamente severa, às vistas dos outros, representava para ele, o pequeno e suave preço a pagar pela vida de gozo e plenitude da qual pudera desfrutar.

Viver é uma arte multifacetada e complementar à nobre arte de falecer. Essa havia sido uma das principais "filosofias" que norteara toda a sua existência. E talvez por isso mesmo, desempenhara nos seus últimos instantes entre nós, o papel elucidativo a cerca de sua dócil e resignada passagem.

E quanto a mim, homem feito, caminhando para a meia-idade entre incertezas, inseguranças e determinadas covardias menores. Me vi mexido, balançado pela integridade meta-moral daquela vida plena que se estendeu por tantos recantos desse mundo e praticamente passou despercebida devido a nossa desatenção para com às existências filosóficas e tão bem auto-examinadas, de seres especiais como meu bisavô.

Mas, surpreendentemente, não me passou pela cabeça fazer comparações geracionais e ou perguntas vulgares do tipo: Será que ainda se fazem homens assim? De certo, eu intuia que sim.

E isto me fez compreender melhor o que o filosofo Sócrates ensinou ao dizer que "Uma vida não examinada nao merece ser vivida". Neste caso, em especial, o merecimento foi total.


Don Johnson de Sales.


Dois olhos azuis


Um par de olhos azuis mira o futuro. Como se o monitor do PC fosse um oráculo moderno. Na cabeça, técnicas e conceitos. No dia, um conjunto elaborado de práticas profissionais. O frio europeu já havia acolhido tais curvas e relevos de pele branca em dias de estudo e aperfeiçoamento intelectual. lábios hipnotizantes emolduram um sorriso que trazem as mais inquietantes fantasias masculinas à tona. Mas seu ideal passa longe do lugar comum de "objeto do desejo". Quer a expertise como estandarte e os poderes sensuais como economia do seu ser mágico que apenas a compartilha com espíritos compatíveis e merecedores. Essas mulheres intelectualizadas, poliglotas, artífices da praxis e academicamente poderosas, sempre me encantam. A mim, e a milhões de homens e mulheres por todo o planeta. Nelas, a sensualidade emana de forma difusa, entrelaçada sobre corpo e intelecto, desafiando nossos sentidos, instintos e desejos que se revezam entre o egoísmo do querer para si e a generosidade de propagandear para o mundo tal maravilha. 

Esse facínio certamente tomou conta de Don Dellilo e o levou a falar através de seu personagem Murray no primeiro capítulo do romance "Ruido Branco" sobre as situações e as gentes "cheias de lábia sexual". Murray, afirmava fugir dessas "situações" e ao discorrer sobre o assunto, declarava: 

"A ironia da coisa é que eu adoro mulher. Fico doido quando vejo umas pernas compridas, andando depressa, com passos largos, quando vem uma brisa do rio, numa manhã luminosa de dia de semana. A segunda ironia é que não é tanto o corpo da mulher que eu desejo, é  a mente. A mente da mulher. Aqueles compartimentos delicados, aquele fluxo unidirecional caudaloso, como uma experiência de física. Como é gostoso conversar com uma mulher inteligente de meias, de pernas cruzadas! Aquele chiadinho de náilon me proporciona uma felicidade de vários níveis".

Eu entendo Murray! Sei exatamente do que ele está falando. Conheço empiricamente esses instantes de felicidade em vários níveis, tal como ele descreve. Acrescento todavia que em certas mulheres, não dá jamais para organizar em hierarquia os prazeres imanentes do seu corpo ou da sua mente. Esses prazers encontram-se fundidos formando um conjunto que conduz a um tipo especial de nirvana justamente por suas qualidades indissolúveis.

Talvez pelo torpor causado pela simples possibilidade de tal estado, não tenha sido ainda possivel precisar se aquele par de olhos mirando o futuro, são realmente azuis, verdes, ou se estão graciosamente coloridos por alguma combinação de tons entre o celeste e o esmeralda.  

Don Johnson de Sales. 

 

domingo, 19 de maio de 2013

O "agora" e suas implicações para o conceito de "presente"



O problema com o "agora" é que sua permanência no presente é efêmera demais. Ao realizar-se, instantaneamente passa para o passado. Esse deslocamento temporal imediato. É um desafio ao conceito de "presente" e nos deixa com a intrigante possibilidade de termos apenas o "passado" como existente, já que o futuro, esse, não passa de uma projeção; de um conjunto de possibilidades que podem ou não acontecer.

Lingerie escura em pele clara






O jogo sempre vira na neblina e nas ruas da metrópole, pensou. Do chão até o topo, a vida sempre muda a sorte. Ele carregava entre os dedos o cigarro Souza Paiol (fumo forte, sem filtro, envolto em palha, preso com uma pequena fita azul que lhe contorna todo o diâmetro e sem a maioria das cerca de quatro mil substâncias tóxicas que compõem as marcas industriais), prazer propositadamente sazonal, pois o mesmo conserva o alcatrão e a nicotina e, portanto, convém administrar racionalmente. A fumaça serpenteia pelo interior do veículo e embaça o para-brisa. Vê-se forçado a abrir os vidros, o que libera os graves do rhythm and poetry que completa a estética urbana desse cenário de vídeo clipe. Poças de água de uma chuva recente se enfileiravam no asfalto e certamente provocariam aquaplanagem, não fosse aquela estratégica velocidade de não mais que quarenta quilômetros por hora que assegurava uma sensação de mover-se em “câmera lenta” pelas ruas desertas da cidade. Fazia frio. O aquecimento vinha da temperatura do motor em baixa rotação. Essa noite parecia maior que as demais. No banco do carona, uma daquelas razões irrefutáveis para se gostar da vida.

Como no Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, o “Soma” também se fazia necessário aqui para amortecer os impactos corrosivos da labuta cotidiana; e para servir de catalisador dos diferentes prazeres que a alma cobra.  Corpos, fumaça, música, ritmo, neon, concreto, LED, pontes, viadutos e esquinas se sucederam no caminho que terminou sob o perfume acolhedor do incenso.  

Mediante determinados efeitos e circunstâncias, a voz feminina é mesmo canto de sereia, principalmente, nas imediações do mar.

Não. Ele não conseguia, não nessas condições, compatibilizar seu estado atual, talvez pelo entorpecer da luxúria, com os recentes tempos passados de angústia e idealismo romântico. Pensava maravilhado: A vida é surpreendente e o homem é instável demais.

Lingerie escura em pele clara, sussurros, meia-luz em tons avermelhados, olhos penetrantes que em questão de segundos reviram a alma.

Uma aliança de ouro 18k, anatômica, acabamento polido e fosco, despencara e se punha a tilintar na pia do banheiro como em um retumbante ritual, uma ode ao matrimônio transgredido e resignificado como triunfo da fêmea rebelada. 

O amargo do Campari, quando degustado sobre a pele arrepiada e entregue, parece atenuado.

E quando o sol passa através das janelas venezianas entreabertas, a vida já virou literatura. E viu seguido e validado o que William Foote Whyte registrou em seu clássico “Sociedade de Esquina” como “o conselho dado a jovens escritores, de que devem trabalhar a partir de sua própria experiência”.



Don Johnson de Sales.



sábado, 18 de maio de 2013

Rimbaud e a chuva



Chove muito neste momento. A chuva lava os telhados e inunda as ruas. O frio é agradável e adequado ao simpático, mas inquietante, "Uma Estadia no Inferno" do poeta Arthur Rimbaud, livro que pertence ao bom amigo Egidio Guerra - e que ainda não tive a oportunidade de devolver - e aproveito para reler neste dia de clima atípico na terra do sol e da luz. E se precisar de uma trilha sonora, djavan, e seu "Um dia frio" está ao alcance da mão.

"O tédio não é mais o meu amor. As raivas, as orgias, a loucura, da qual sei todos os impulsos e os desastres - todo o meu fardo foi descarregado. Vamos apreciar sem vertigem o tamanho de minha inocência." Arthur Rimbaud.