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sexta-feira, 17 de maio de 2013

A Idade da Razão

"Toda a sua liberdade acabava de retroceder sobre ele.
Pensou: Não, não é cara ou coroa. O que quer que aconteça, 
é através de mim que há‑de acontecer."

"Ainda que se deixasse levar, desamparado, desesperado, mesmo que se deixasse transportar como um saco de carvão, tinha escolhido a sua perdição. 

Era livre, livre, para tudo, com liberdade de ser um animal ou uma máquina, de aceitar, de recusar, de hesitar, casar, desaparecer, de se arrastar durante anos com aquela cadeia aos pés. 

Podia fazer o que quisesse, ninguém tinha o direito de aconselhá‑lo. Só havia para ele Bem e Mal se os inventasse. 
Em volta dele as coisas tinham‑se agrupado, esperavam sem um sinal, sem a menor sugestão. Estava só no meio de um silêncio monstruoso, só e livre, sem auxílio nem desculpa, condenado a decidir‑se sem apelo possível, condenado à liberdade para sempre."

Sartre (trecho de "A Idade da Razão") 


Amizade - Condicionantes preponderantes



Há uma qualitativa diferença entre os vários tipos de amizade que se pode cultivar ou pelo menos aspirar na vida. Toda relação amistosa é desejável. Porém, as amistosidades seguem,via de regra, outros conjuntos de condicionantes que terminam por modelar essa ou aquela forma de amizade. Interesses políticos, sentimentais, econômicos e até sexuais, costumam se entrelaçar e atuar em espiral no interior das amizades. Sendo que uma dessas condicionantes se torna preponderante e dá o tom; e define a forma perceptiva da amizade. Mais a condicionante preponderante é variável no tempo e nas situações que a vida orquestra como pano de fundo de dada amizade.

Afirmar se determinado tipo de amizade marcada por certa condicionante preponderante é boa ou ruim, construtiva ou não, melhor ou pior, é querer definir de forma absoluta algo indefinível na forma do absoluto; é querer absolutizar a relatividade das condições, contextos, momentos e estados de espírito característicos do universo complexo no amâgo do qual nascem, se desenvolvem e perecem as amizades.

De qualquer forma, mais do que examinar, definir e teorizar sobre a amizade, o mais importante, e talvez a única coisa realmente essencial, seja viver as amizades sempre que se julgue que elas valham realmente a pena. E isto também é muito relativo.

Se algo lhe faz bem, convém manter perto de você. Se algo lhe faz mal, o recomendável é que busque afastar de seu convívio. O resto, não tem lá muito significado ou relevância fora do abstracionísmo e do idealísmo que pouco ajudam na difícil e rara arte de bem viver.


Don Johnson de Sales.



quarta-feira, 15 de maio de 2013

Noite quente!



Quente! Como ajustar-se? E lia vagarosamente o interessante "Ruido Branco" de Don Delillo. Noite quente! O vento recusava-se a circular por entre as casas mal pintadas do suburbio. Na pia da cozinha ainda esperavam para serem limpas duas taças e uma bandeja. Quente! Lembranças quentes teimam em disputar a atenção necessária para degustar a literatura que exige concentração. Afinal, segundo o The New York times a grande particularidade de "Ruido Branco" é sua compreensão e percepção da trilha sonora dos Estados Unidos, incluindo o som sempre presente do tráfego da auto-estrada, um murmúrio remoto e constante que contorna nosso sono, como almas mortas balbuciando nas margens de um sonho. Para extrair tamanha sensação de uma leitura, é preciso concentração. E tá difícil nessa noite quente.

Don Johnson de Sales.

Funk, Brega, Religião e Estética em Ruth Benedict (?)


Ruth Benedict, escreve, em Padrões de Cultura: "O grandioso período da arte plástica da Europa foi motivado religiosamente. A arte pintou e tornou propriedade comum as cenas religiosas e os dogmas, fundamentais no ponto de vista desse período. A estética europeia moderna teria sido absolutamente outra se a arte medieval tivesse sido puramente decorativa e não tivesse feito causa comum com a religião.

A autora aborda essa questão para tratar da necessidade de não se generalizar como lei social geral resultados de uma fusão local de feições culturais. Ruth Benedict também está preocupada em alertar para que não se tome como fenômeno universal, determinada união local. Ou seja, não se passe a acreditar a partir do conhecimento e análise da arte européia nesse dado período e contexto que a arte e a religião apresentem-se universalmente com essas feições fundidas. Afinal, lembra Benedict:

 No ponto de vista puramente histórico têm-se, no campo da arte, dado grandes acontecimentos notavelmente alheios à motivação e à utilização religiosa. A arte pode manter-se definitivamente alheia à religião, mesmo onde uma e outra atingiram alto desenvolvimento.

A autora afirma que "nos povos do sudoeste dos Estados Unidos as formas de arte da olaria e dos tecidos provocam grande respeito nos artistas de qualquer cultura, mas os seus vasos sagrados usados pelos padres ou próprios dos altares são inferiores, e as decorações, rudes e não estilizadas. Nalguns museus têm-se se posto de parte objetos religiosos do sudoeste por estarem muito abaixo do nível tradicional de habilidade. 

Segundo  a  autora, para os indíos Zuñis as exigências religiosas eliminam toda a exigência de perfeição artística. Ruth afirma ainda que outros povos como certas tribos da América do sul e da Sibéria também fazem essa distinção e não usam a habilidade artística para servir a religião.

Seria possível aplicarmos a mesma lógica utilizada por Ruth Benedic em relação às artes plásticas e a religião, para analisarmos outras manifestações e principalmente expressões artísticas contemporâneas?

Tal discussão é muito importante, ainda mais, se a trazemos para nossa época e para o contexto atual de nossa cultura local. No Brasil de nossos tempos temos grande inclinação para associar, ou na maioria das vezes, resistir a desassociar, determinada expressão artística, ritmo ou manifestação cultural das motivações, e ou mesmo dos temas, aos quais aparecem fundidos ou entrelaçados. Nossa sociedade, ou amplas frações desta, tem "defenestrado" várias manifestações culturais e artísticas populares por incapacidade de vê-las separadas dos discursos, motivações e da estética predominante nas mesmas atualmente.

O RAP, o funk, o forró, o pagode, a música brega, a pixação, são expressões artísticas que se enquadram facilmente num campo de estudos que leve em conta esses argumentos de Ruth Benedict. Isso se tivermos a generosidade e ou o alcance intelectual necessários para adaptar tais argumentos a novos, atuais e desafiadores objetos de estudo.

Tal empreitada seria possível?



SOBRE VERDADE E MENTIRA NO SENTIDO EXTRA-MORAL

 
Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da "história universal": mas também foi somente um minuto.

O intelecto, como um meio para a conservação do indivíduo, desdobra suas forças mestras no disfarçe.

No homem essa arte do disfarçe chega a seu ápice; aqui o engano, o lisonjear, mentir e ludibriar, o falar-por-trás-das-costas, o representar, o viver em glória do empréstimo, o mascarar-se, a convenção dissimulante, o jogo teatral diante de outros e diante de si mesmo, em suma, o constante bater de asas em torno dessa única chama que é a vaidade, é a tal ponto a regra e a lei que quase nada é mais inconcebível do que como pôde aparecer entre os homens um honesto e puro impulso à verdade.

O mentiroso usa as designações válidas, as palavras para fazer aparecer o não-efetivo; o que odeiam, no fundo não é a ilusão, mas as consequências nocivas, hostis, de certas espécies de ilusões.

O que é uma palavra? A figuração de um estímulo nervoso em sons.

Acreditamos saber algo das coisas mesmas, se falamos de árvores, cores, neve e flores, e no entanto não possuímos nada mais do que metáforas das coisas, que de nenhum modo correspondem às entidades de origem.

Todo conceito nasce por igualação do não-igual. O conceito é formado pelo arbitrário abandono das diferenças individuais, por esquecer-se do que é distintivo, e desperta então a representação. A desconsideração do individual e efetivo nos dá o conceito.

O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas.

Tudo o que destaca o homem do animal depende dessa aptidão de liquefazer a metáfora intuitiva em um esquema, portanto de dissolver uma imagem em um conceito. Cada metáfora intuitiva é individual e sem igual e, por isso, sabe escapar a toda rubricação. O conceito é somente um resíduo da metáfora.

Nietzsche. 

Pedantismo desterrado




Existem léguas de conhecimento que percorridas metaforicamente por entre "monstros" como Hegel, Engels, Marx e Weber terminam por encontrar repouso igualmente magnânimo à sombra de "gigantes" como Patativa do Assaré, Zé da lata, ou mesmo qualquer senhor ou senhora sentado(a) confortavelmente em seu tamborete de couro de bode sobre o chão batido de alguma casa de taipa ou palha de algum rincão alhures do mundo físico, filosófico ou espiritual, do qual, todo o pedantísmo academicísta e burguês foi desterrado.

Elle est retrouvée! Quoi? L' éternité.

Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
        Ao sol.

Minha alma imortal,
Cumpre a tua jura
Seja o sol estival
Ou a noite pura.

Pois tu me liberas
Das humanas quimeras,
Dos anseios vãos!
Tu voas então...

— Jamais a esperança.
Sem movimento.
Ciência e paciência,
O suplício é lento.

Que venha a manhã,
Com brasas de satã,
           O dever
           É vosso ardor.

Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
       Ao sol.
 
Arthur Rimbaud. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Os rituais diários de grandes escritores (Sentados, de pé, deitados, bebendo e até nús)

 ROTINA Em seu livro Daily rituals, o americano Mason Currey descreve os hábitos de trabalho de 161 artistas

 O que os hábitos e manias de autores de sucesso nos ensinam sobre produtividade

 
*DANILO VENTICINQUE

Uma das fórmulas mais eficientes para se tornar improdutivo é passar o dia lendo sobre produtividade. A internet e as prateleiras de autoajuda estão cheias de textos que querem nos ensinar a trabalhar melhor. Seus conselhos muitas vezes se contradizem. Compará-los é uma tarefa para várias tardes ociosas, que poderiam ser aproveitadas de outras formas — trabalhando, por exemplo. Além de nos transformar em crianças que apontam todos os lápis impecavelmente em vez de fazer a lição de casa, esses métodos infalíveis têm procedência duvidosa. Os gurus da produtividade fazem pouco. Costumam se dedicar exclusivamente a divulgar suas técnicas e a fazer fortunas com elas, em vez de usar os tais hábitos extraordinários de trabalho para construir algo admirável. Não é, convenhamos, uma existência muito produtiva. 

Talvez por duvidar dos mercadores da produtividade, o escritor americano Mason Currey buscou inspiração noutro tipo de guru. Obcecado pela rotina diária de grandes artistas, ele decidiu reunir informações sobre seus métodos de trabalho. O resultado da pesquisa está no livro Daily rituals (Knopf, 304 páginas), recém-lançado nos Estados Unidos. "Quase todos os dias da semana, por um ano e meio, eu acordei às 5h30 da manhã, escovei os dentes, tomei uma xícara de café e me sentei para escrever sobre como as mentes mais brilhantes dos últimos quatro séculos se dedicavam a essa mesma tarefa — encontrar tempo para fazer seu melhor trabalho e organizar seus horários para trabalhar de forma produtiva e criativa." O resultado é um simpático almanaque biográfico, com detalhes mundanos sobre 161 mentes geniais, e um guia de produtividade capaz de consumir alguns dias de preguiça.  

Ao contrário dos gurus marqueteiros, os escritores estudados por Currey têm em suas obras argumentos irrefutáveis para provar que seus métodos de trabalho funcionam. Gostamos de imaginar autores geniais numa realidade paralela, em que a imensidão do talento faz a obra brotar pronta. A realidade é menos mágica e, por isso, mais impressionante. Em algum momento do dia, entre afazeres domésticos e problemas do cotidiano, o escritor russo Liev Tolstói (1828-1910) reservou um tempo longe de sua mulher e de seus filhos para começar a escrever Guerra e paz. Depois, teve de criar uma rotina diária para conseguir completar a obra. Seu grande triunfo literário não existiria sem a vitória modesta sobre as distrações do cotidiano. Os hábitos dele e de outros escritores podem servir como inspiração para uma vida mais grandiosa. Ou ao menos como um argumento para manter a concentração no trabalho, em vez de clicar no próximo artigo de autoajuda. 

Encontre uma posição confortável e permaneça nela 
Entre as qualidades importantes para um aspirante a escritor, o autor americano Philip Roth se deteve num talento prosaico. “Uma habilidade que todo escritor precisa ter é a capacidade de sentar quieto, nessa profissão profundamente monótona”, disse ele, numa entrevista em 1987. Roth subestimou seus colegas. Mesmo autores incapazes de parar sentados por um minuto conseguiram produzir grandes obras ao longo de suas carreiras, cada um na sua postura favorita. Alguns sequer se davam ao trabalho de levantar. O escritor francês Marcel Proust (1871-1922) escreveu Em busca do tempo perdido deitado na cama, com a cabeça apoiada em dois travesseiros. Décadas depois, o jornalista americano Truman Capote (1924-1984) também escreveu seus livros na horizontal, esticado na cama ou no sofá, com um cigarro numa das mãos e um café (ou um martíni) ao lado.  

Outros preferiam escrever em pé. O americano Ernest Hemingway é o mais célebre, mas não o único. O romancista Thomas Wolfe (1900-1938), de dois metros de altura, criou o hábito de escrever em pé, usando o topo de um refrigerador como apoio. Outro caso folclórico é o do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855), que dividia seu tempo entre a mesa de trabalho e as caminhadas nas ruas de Copenhague. Quando uma ideia importante surgia no meio de um passeio, ele voltava correndo para casa e escrevia em pé, debruçado sobre a mesa, sem ao menos tirar o chapéu ou largar o guarda-chuva. 

Defenda seu santuário — se precisar de um 
Alguns escritores são mais vulneráveis às distrações do cotidiano do que outros. O alemão Thomas Mann (1875-1955) não encontrava sossego para escrever seus romances se não proibisse sua mulher e seus seis filhos de entrar no escritório. O inglês Charles Dickens (1812-1870), apesar de muito produtivo, só conseguia trabalhar em silêncio absoluto, numa mesa cuidadosamente decorada e de frente para uma janela. O americano Jonathan Franzen, além do barulho, teve de aprender a enfrentar as distrações da modernidade. Seu primeiro grande romance, As correções, foi escrito num quarto escuro, com fones de ouvido para isolar o barulho e um computador sem acesso à internet.  

Um bom exemplo de concentração inabalável é a inglesa Jane Austen (1775-1817), que morava com a mãe, a irmã, uma amiga e três criadas numa casa que recebia visitas constantes. As interrupções não a impediram de escrever romances como Orgulho e preconceito em pequenos pedaços de papel, que ela escondia para dar atenção aos convidados. Outro caso que merece atenção é o americano Joseph Heller (1923-1999), que escrevia na mesa da cozinha enquanto sua mulher assistia à televisão. Ele demorou oito anos, mas conseguiu terminar seu romance mais famoso, Catch-22.  

Renda-se às suas manias 
Para despertar sua criatividade, não é raro que autores recorram a hábitos excêntricos. Thomas Wolfe, o mesmo que escrevia de pé apoiado no refrigerador, gosta de ficar nu para despertar sua energia masculina (tente não imaginar a cena). Outro exemplo insólito é o do poeta alemão Friedrich Schiller (1759-1805), que guardava maçãs velhas em sua gaveta e usava o cheiro podre como estímulo para a escrita. A escritora de suspense Patricia Highsmith (1921-1995) tinha um costume mais comum — o de beber uma dose de vodca antes de escrever. Não demorou muito para que ela desenvolvesse uma resistência ao álcool. Ela aumentou as doses e começou a usar uma caneta para marcar, na garrafa, seus limites de consumo diário. A técnica inusitada a torna digna de uma menção especial, em meio a tantos outros escritores viciados em café, álcool e cigarros.  

Faça tudo na hora certa  
Nunca houve — e provavelmente jamais haverá — um levantamento estatístico sério sobre os horários favoritos dos grandes escritores do passado. Uma leitura rápida de Daily rituals evidencia uma predileção pelo silêncio das manhãs. A rotina diária da maioria dos escritores citados no livro começa com um café antes do amanhecer e longas horas de trabalho até a refeição seguinte. Os defensores das manhãs são fervorosos. "Não acredito em escrever à noite, porque a escrita vem fácil demais", disse o alemão Günter Grass. O poeta anglo-americano W. H. Auden (1907-1973) foi mais incisivo: "Somente os Hitlers do mundo trabalham à noite; nenhum artista honesto o faz." 

Apesar da militância matutina, as noites embalaram o trabalho de alguns autores consagrados. Proust só acordava por volta das 16h. Deitado em sua cama, escrevia ao longo da madrugada, com a ajuda de tabletes de cafeína, e tomava calmantes quando decidia dormir. O alemão Franz Kafka (1883-1924) também atravessava madrugadas. Ele só começava a escrever às 22h30, em sessões que às vezes se estendiam até as 6h. Como trabalhava de manhã numa seguradora, ele tinha de dormir à tarde para manter sua rotina. 

Também não se pode descartar um grupo intermediário, mais raro, de escritores que preferem as tardes. James Joyce (1882-1941) é o mais ilustre deles. O escritor irlandês acordava às 11h, começava a escrever depois do almoço e reservava a noite para frequentar restaurantes e cafés. Foi assim que escreveu Ulysses, ao longo de sete anos, somando 20 mil horas de trabalho, nas suas contas. O dramaturgo Samuel Beckett (1906-1989), outro irlandês, também usava as tardes para trabalhar. Gostava de aproveitar as noites para perambular por bares e se entupir de vinho barato. 

Aprenda a deixar para amanhã 
Um dos escritores mais prolíficos da história, o francês Honoré de Balzac (1799-1850) tinha uma rotina de trabalho tão incomum que é impossível dizer se ele preferia as noites ou as manhãs. Ele jantava às 18h e ia dormir em seguida. Acordava às 1h e trabalhava até as 16h embalado por dezenas de xícaras de café, com uma pausa às 8h para uma soneca de uma hora. Sua paixão doentia pelo trabalho era semelhante à de Voltaire (1694-1778), que começava a escrever antes mesmo de sair da cama, com a ajuda de uma secretária a quem ditava seus textos. Ele chegava a trabalhar 20 horas num dia. 

Felizmente, é possível garantir um lugar na história da literatura universal trabalhando por muito menos tempo do que Balzac ou Voltaire. Com seis filhos e uma mulher para disputar sua atenção, Thomas Mann só conseguia dedicar três horas por dia à escrita. O americano Henry Miller (1891-1980), viciado em trabalho no início de sua carreira, também aderiu a uma rotina mais suave depois de envelhecer. Passou a não escrever nada depois do meio dia, e desenvolveu o hábito de abandonar a máquina de escrever “enquanto ainda tinha algo a dizer.”

Repita tudo de novo 
"O talento é algo maravilhoso, mas não é capaz de carregar quem desiste." A frase do americano Stephen King, mestre da literatura de terror, evidencia a importância que ele atribui à persistência para o sucesso na carreira literária. King segue sua própria fórmula. Ele é conhecido por escrever duas mil palavras todos os dias, incluindo feriados e seu aniversário. A disciplina para a repetição é uma das poucas características comuns a quase todos os escritores cuja rotina é esmiuçada em Daily rituals. Hemingway acordava todos os dias antes do amanhecer, mesmo quando se embebedava na noite anterior. O poeta irlandês W. B. Yeats (1865-1939) se obrigava a trabalhar ao menos duas horas por dia, por menor que fosse sua vontade. Tolstói também fazia questão de escrever todos os dias, “nem tanto pelo sucesso de meu trabalho, mas para não sair de minha rotina”, como registrou num de seus diários. 

Aos que têm dificuldade para seguir uma rotina, o romancista francês Gustave Flaubert (1821-1880) é um exemplo encorajador. Ele acordava às 10h, mas normalmente só conseguia começar a escrever às 22h. O barulho do dia o distraía facilmente. Muitas vezes ele reclamava de seu progresso lento. Numa semana inteira de trabalho, enquanto escrevia o romance Madame Bovary, só conseguiu completar duas páginas. Mesmo assim, perseverou até terminar a obra, e justificou-se: “Apesar de tudo, o trabalho ainda é o melhor meio de fazer a vida passar." 


*DANILO VENTICINQUE é editor de livros de ÉPOCA. Conta com a revolução dos e-books para economizar espaço na estante e colocar as leituras em dia. Escreve às terças-feiras sobre os poucos lançamentos que consegue ler, entre os muitos que compra por impulso.




 

Mestrado e Doutorado FUNCAP reajusta bolsas



Medida garante mais investimento do governo do Estado em ciência, tecnologia e inovação

A Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) acaba de reajustar as bolsas de mestrado e doutorado em 11,11% e 10%, respectivamente. Para o presidente do órgão, Haroldo Rodrigues, a medida comprova a decisão do governo do Estado do Ceará de investir em ciência, tecnologia e inovação.

O presidente da Funcap, Haroldo Rodrigues, afirma que a medida mostra comprometimento do governo com o fortalecimento do órgão Foto: kid Júnior

Com os reajustes, a partir de abril deste ano, a bolsa de mestrado passa de R$ 1.350,00 para R$ 1.500,00 e a de doutorado de R$ 2.000,00 passa para R$ 2.200,00. Segundo ele, o governo reviu os cortes nos limites financeiros da Funcap, que é vinculada à Secretaria de Ciência e Tecnologia do Ceará, permitindo que o órgão executasse ações de grande impacto em seu Programa de Formação de Recursos Humanos para Pesquisa.

Os novos limites, autorizados pelo Conselho de Gestão por Resultados e Gestão Fiscal (Cogerf), permitiram que a Fundação equiparasse o valor da bolsa de mestrado acadêmico e doutorado aos praticados pelas agências nacionais, ressaltou Haroldo Rodrigues.

Os novos limites financeiros da Funcap também permitirão à Fundação liberar o uso integral das quotas de bolsas de mestrado acadêmico e doutorado a partir deste mês. Durante os meses de março e abril de 2013, os programas estiveram autorizados a utilizar apenas parcialmente as quotas. Como resultado, a Funcap passa a conceder um total de 588 de bolsas de mestrado e 307 bolsas de doutorado para utilização dos programas de pós-graduação do Estado.

A autorização dada pelo governador para o aumento dos limites financeiros da Fundação é a reafirmação do compromisso de Cid Gomes com o fortalecimento da Funcap e de seus programas em benefício do desenvolvimento tecnológico e científico do Estado, considera Haroldo Rodrigues. Com os novos valores das bolsa, o investimento é de aproximadamente R$ 18 milhões em formação de recursos humanos para pesquisa, desenvolvimento e inovação.

D e março de 2012 a fevereiro de deste ano, foram 1.183 mestres e 392 doutores. Em 2006, esses números foram 648 mestres e 117 doutores. Ou seja, nos últimos seis anos, o número de mestres formados/ano quase duplicou e o número de doutores formados/ano triplicou.

MOZARLY ALMEIDAREPÓRTER


Fonte:  http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1267061



Escrita e Sentidos (de Bule-Bule a Thomas Robbes)



Foi como se cada letra carregasse o peso de todo aquele tempo; as laudas cheiravam à estrada de terra esporadicamente molhada pela mesma chuva que Bule-Bule via mudar o som da batida da cancela; formar frases perfeitas como o prateado da lua nova sobre a abundante relva, isso sim, é uma missão digna de um homem letrado: Botar no papel tudo aquilo que de melhor todos os sentidos coletarem no ambiente que o cerca, e quem sabe, agradar e ou corroborar com Hobbes que pensava que só é possível conhecer algo do mundo exterior por meio das impressões sensoriais que temos dele. Penso que esta é uma das mais apaixonantes possibilidades da escrita.


Don Johnson de Sales.